um mangusto existencialista
“Somos um conjunto de pedaços de outros seres, de antepassados, e há dentro de nós as grandes vitórias e as grandes derrotas subjetivas. Tenho vontade, às vezes, de escrever um livro. A história de um homem amante das sombras, um homem inatual, um homem que fuja das relações de tempo e de espaço e que seja só, na multidão. Um homem que beba a sua vida pelo seu copo e que se ponha além do sentimento, além do instinto muito além do bem e do mal. Esse personagem não seria somente dor e somente sofrimento. Haveria nele resplendores de alegria imortal e profunda. Haveria lá dentro, também, da sua alma, luzes imensas que iluminariam desejos, sentimentos, ânsias e vitórias. Uma vontade de ser, de afirmar, de dominar, far-lhe-ia despertar uma sinfonia panteísta de entusiasmo, de glorificações de todas as suas energias, de reconciliações consigo e com o mundo, de um pessimismo criador, fecundo até na destruição, feroz e manso, luminoso e sombrio, trágico, extremado, valente; livre de todas as liberdades citadinas que são as mais cruéis das escravidões; que viveria as leis de sua própria natureza com o ritmo de suas próprias ambições e desejos; que amaria a alegria sem fugir da dor, e a vida sem temer a morte... Um homem que teria nas mãos a água lustral da felicidade e bebê-la-ia de lábios ressequidos, e não a deixaria escorrer pelos dedos... E essa alma solitária seria uma afirmação, porque ela quereria buscar dentro de si as grandes afirmações que fazem falta. Haveria um delírio de ser si mesmo, ele buscaria suas partes perdidas pelos homens e pelas coisas...”
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