quinta-feira, 21 de agosto de 2008

um mangusto existencialista

“Somos um conjunto de pedaços de outros seres, de antepassados, e há dentro de nós as grandes vitórias e as grandes derrotas subjetivas. Tenho vontade, às vezes, de escrever um livro. A história de um homem amante das sombras, um homem inatual, um homem que fuja das relações de tempo e de espaço e que seja só, na multidão. Um homem que beba a sua vida pelo seu copo e que se ponha além do sentimento, além do instinto muito além do bem e do mal. Esse personagem não seria somente dor e somente sofrimento. Haveria nele resplendores de alegria imortal e profunda. Haveria lá dentro, também, da sua alma, luzes imensas que iluminariam desejos, sentimentos, ânsias e vitórias. Uma vontade de ser, de afirmar, de dominar, far-lhe-ia despertar uma sinfonia panteísta de entusiasmo, de glorificações de todas as suas energias, de reconciliações consigo e com o mundo, de um pessimismo criador, fecundo até na destruição, feroz e manso, luminoso e sombrio, trágico, extremado, valente; livre de todas as liberdades citadinas que são as mais cruéis das escravidões; que viveria as leis de sua própria natureza com o ritmo de suas próprias ambições e desejos; que amaria a alegria sem fugir da dor, e a vida sem temer a morte... Um homem que teria nas mãos a água lustral da felicidade e bebê-la-ia de lábios ressequidos, e não a deixaria escorrer pelos dedos... E essa alma solitária seria uma afirmação, porque ela quereria buscar dentro de si as grandes afirmações que fazem falta. Haveria um delírio de ser si mesmo, ele buscaria suas partes perdidas pelos homens e pelas coisas...”

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Esperando


A proximidade suspeita de qualquer felicidade sempre me fez mudar de assunto. No entanto, algo tem insistido em me convencer e se aproximar. Estou falando de calores. Tenho esquentado minhas pernas e meus dias dando chance a doçura, deve haver alguma em mim. Deve haver um infinito que me sirva e que faça de mim o que bem entender, deve haver algo mais grave. As vezes sinto vergonha em desfrutar da esperança, como agora. Talvez me falte a coragem dos ignorantes, a simplicidade dos que esperam em vão imaginando vultos e fabricando razões. Não sei do que estou falando, não sei o que estou pedindo ou esperando, mas tenho os olhos mais quentes e convidativos. A vida me agrada... ID

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Tempo


Traz esse teu olhar pra perto de mim, desembrulha tua alma introspectiva e vamos cuidar das coisas com calma. Deixa o profundo pra outra hora antes que a gente se consuma até os nervos. Há tempo pra almas angustiadas, mas há dias de tons bem mais leves, de sentimentos sutis. Não determine o sentido das coisas antes delas terem algum. Espere o momento do desespero, não o antecipe. Se ele quiser, virá em dias tão lindos como este. Agora, só há o convite pro sono mais doce e pra conversa mais amena que nos faça rir de novo.Deixa teu coração abraçar o que digo enquanto afago teus cabelos.O nome disso é carinho.Esquece um pouco essa dor que te espreita.Convida ela pra dormir ao relento enquanto meu colo quente vai chamando de volta teu sossego.Chega de tantas palavras que fervem, meu amor. Vamos pronunciar cuidados. Vamos nos envolver em abraços. Vamos viver o que chega assim, limpinho, sem apertar o peito. Traz teu olhar pra bem perto, eu os fecho e te mostro a paisagem que teci com palavras pra adoçar teus ouvidos.


Vamos dormir em paz e acordar antes desses amanhãs.Vamos acordar antes que seja tarde.
MQ

terça-feira, 5 de agosto de 2008


..."Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem - pois nunca morou antes em ninguem nem jamais lhe puseram rédeas nem sela - apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma docura primeira de quem nao tem medo..." (CL)